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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Estado laico, drag queens e liberalismo

Recebi um e-mail de um amigo enfurecido com um assunto um tanto peculiar. A Associação espanhola COGAM (Coletivo de Gays, Lésbicas, Transexuais e Bissexuais de Madri) usou drag queens para representar imagens sacras, numa alusão à Maria, mãe de Jesus.

O objetivo do grupo é criar um debate (?) sobre a influência da Igreja de Roma na sociedade espanhola, uma vez que a mesma Igreja estaria colocando sérios entraves às conquistas de direitos reivindicados pelos LGBT. Vamos por parte.
Que as sociedades humanas se tornem laicas não deve ser só um desejo, mas também um direito. Nos dias de hoje, muitos países na Ásia e na África vivem atolados em ditaduras religiosas que oprimem, perseguem e executam grupos religiosos minoritários, minorias sexuais e adversários políticos. Dessa forma, um Estado laico permite a existência de uma sociedade libertária e democrática. Contudo, o laicismo não deve ser confundido com anti-religião ou perseguição a grupos religiosos, algo que ocorreu na antiga URSS e noutras ditaduras socialistas.
Um país laico separa a religião do Estado, reconhece a existência de diversas confissões religiosas e garante, às mesmas, a liberdade de culto e organização. Mas, para algumas pessoas, o laicismo virou uma espécie de bandeira que visa eliminar toda e qualquer influência religiosa da vida social. No Estado de Minas Gerais, por exemplo, há um movimento que pretende acabar com as tradicionais Festas Juninas, pois as mesmas ofenderiam os não-católicos, já que tais festas estão ligadas à celebração de santos católicos. Transformar o Natal em Dia da Democracia (ou num outro dia qualquer) é no mínimo tendencioso. Por mais que nossa sociedade seja laica, muitos valores religiosos estão encravados nela, quer queiramos ou não. O jurista italiano Norberto Bobbio (1909-2004) reconhece que os direitos humanos tiveram origem no universalismo cristão. A própria ideia de Estado laico pode ter se originado no cristianismo, quando o próprio Jesus de Nazaré disse: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mc 12,17; Mt 15,21; Lc 20,25)
Se fôssemos levar ao pé da letra o princípio da laicidade, chegaríamos ao extremo de retirar quadros e imagens antigas de museus ou mesmo adotaríamos uma outra forma de contar os anos, já que nosso calendário é cristão.
Como liberal, sou a favor da liberdade de expressão e pensamento. Mas devemos ter em mente que direitos implicam também em deveres. Portanto, não sou contra drag queens fantasiadas de “santas”, mas também reconheço o direito de comediantes rirem, debocharem e ironizarem gays afetados.
A postura de alguns segmentos LGBT tem sido de censurar opiniões contrárias às suas ou mesmo de processar atores, diretores e humoristas que transmitem uma imagem deturpada acerca dos homossexuais. E não me venham com o argumento de que isso é para promover a cidadania das minorias sexuais. Pode-se fazer piada de padre, de freira, de loura e do Pedrinho, mas fazer as mesmas piadas com gays (ou negros, ou judeus, ou muçulmanos), não? É, no mínimo, incoerente.
O único ódio politicamente correto (e eticamente débil) é o preconceito contra o Cristianismo e a Igreja Católica (será que algum dia também criminalizarão a cristianofobia?). Mas, como dizem, chutar cachorro morto é fácil. Conclamo os digníssimos dirigentes gays a fazerem retratos do profeta Maomé com garotos de programa ou, ainda, de dois imames[1] se beijando na boca, para representar nossa indignação com a situação dos nossos irmãos homossexuais sob a “égide” do Islã. Estes sim são humilhados, perseguidos, violentados e assassinados. Mas não! Nossos camaradas espanhóis preferem brincar, no conforto das democracias liberais, de atacar a Igreja Romana a dar a cara a tapa e lutar para que as liberdades civis e individuais sejam plenas para todos os seres humanos.

Nota:
[1] Imame ou imã – Em árabe امام, "aquele que guia" ou "aquele que está adiante". Termo que designa os principais líderes religiosos do Islamismo.

Fonte:
BOBBIO, Norberto – A Era dos Direitos – Rio de Janeiro - 1992

Só mais uma, promento!
Veja, neste link, uma reportagem (em inglês) do mês passado sobre o assassinato de homossexuais por milícias islâmicas. Eu não postei, pois ao ver as fotos fiquei com nojo e raiva do tribalismo desses povos.